Odair José – Meu Coração Ainda É Seu (1973

Odair José

Resenha do LP

Odair José Meu Coração Ainda É Seu.

Ele é o cronista das pessoas que amaram e já choraram muito por causa de amores perdidos, e não têm o menor pudor em admitir isso. É o menestrel das pessoas que amam, porém vivem com medo de perder o ser amado, relatando seus dramas em canções protagonizadas por prostitutas, operários, taxistas, empregadas domésticas e outros representantes das classes sociais menos favorecidas. Apelidado de “terror das empregadas” e “Bob Dylan da Central do Brasil”, tem músicas com letras diretas, sem firulas metafóricas, que calam fundo no peito. Estamos falando de Odair José, ícone do gênero romântico-brega (termo a princípio pejorativo, o mesmo que “cafona”, mas que hoje designa música popular de fácil assimilação), que o Baú de Long Playing põe em foco hoje.

Batizado como Odair José de Araújo, este autêntico ídolo popular veio ao mundo na cidade goiana de Morrinhos, no dia 16 de agosto de 1948. Talento precoce (mais um entre tantos!), aos dez anos já tocava piano, violão e gaita. Aos 12 anos, formou uma dupla sertaneja ao lado de um amigo chamado Demétrius (não confundir com o cantor do “Ritmo da chuva”), que infelizmente logo faleceu, em virtude de reação alérgica uma injeção. Odair então mudou-se para Goiânia, capital do estado, onde continuou seus estudos musicais e começou a compor. Aos dezoito anos, transfere-se para o Rio de Janeiro, sonhando com a carreira de cantor profissional. Mas a coisa não foi nada fácil para o nosso Odair: em alguns períodos, ele teve que dormir na rua e trabalhar em inferninhos e boates “Barra-pesada”. Mas foi graças a essa vivência na noite que Odair lapidou seu estilo único e marcante de compor e cantar. Seu primeiro disco foi um compacto simples pela extinta gravadora Genial, em 1969, apresentando as músicas “Uma lágrima” e “Ajuda-me”. Um ano mais tarde, é contratado pela CBS, atual Sony Music, lá estreando com outro single, contendo “Minhas coisas” (seu primeiro grande sucesso) e “Meu céu e você”. Ainda em 70, lança seu primeiro LP, sem título. Em 1973, transfere-se para a Phonogram, hoje Universal Music, registrando muitos outros sucessos e também causando muita polêmica, sobretudo com a canção “Uma vida só (Pare de tomar a pílula)”, lançada nesse mesmo ano e logo proibida pela censura do governo militar, que a considerou contrária a uma campanha de controle da natalidade que então promovia entre os mais pobres, sendo liberada apenas cinco anos depois, com a chamada “abertura lenta e gradual”. Odair viu-se então obrigado a exilar-se na Inglaterra, voltando ao Brasil apenas para cumprir compromissos artísticos, até a poeira baixar.

Entre os muitos e numerosos hits de Odair José, podemos citar: “Eu vou tirar você desse lugar”, “Cristo, quem é você?” (que enfureceu o clero e as comunidades católicas mais fervorosas), “Deixe essa vergonha de lado”, “Esta noite você vai ter que ser minha”, “Cadê você?” (“que nunca mais apareceu aqui”…), “A noite mais linda do mundo”, “Na minha opinião”, “Que saudade de você”, “Alegria triste”, “Eu tenho” (que está no presente LP), “Revista proibida”, “Dê um chega à tristeza”, “Eu, você e a praça”, “Eu chorei (O parto)” e outros mais, bastante executados em rádios populares das grandes capitais brasileiras. Ao transferir-se para a RCA, hoje também Sony Music, em 1977, lançou o maior fracasso de sua carreira, o álbum “O filho de José e Maria”, uma ópera-rock com músicas polêmicas contando o nascimento, a vida e a morte de um homossexual que resolve assumir sua opção aos 33 anos e encontra a felicidade. Odair acabou excomungado pela igreja católica e o disco, banido. Mesmo com tantas pressões, Odair José nunca se deu por vencido, e continuou a compor e interpretar suas músicas. Fez inclusive canções para outros artistas, como Rosemary (“Quero ser sua”, “Uma nova vida”), José Augusto (“Mania de grandeza”), Barros de Alencar (“Por mais que eu tente”), Nenéo (“Seu pai tem que saber”) e a então esposa Diana (“Eu gosto dele”, “Romance bem simples”, “Foi tudo culpa do amor”, esta em parceria com ela), com quem manteve conturbado relacionamento, que culminou com a separação do casal. Até alcançar, finalmente, nos anos 2000, o status de artista cult, com as homenagens e álbuns-tributos de praxe, participação em comerciais de TV, etc.

De sua longa e expressiva discografia, o Baú de Long Playing nos traz hoje “Meu coração ainda é seu”, uma compilação editada pela CBS (selo Tropicana) em 1973, reunindo faixas dos primeiros discos de Odair. Do primeiro LP, sem título, de 1970, vêm as faixas “Sua cartinha”, “Mundo feito de saudade”, “Perdi o medo”, “Se eu tivesse você” e a já citada “Eu tenho”. Do segundo álbum, “Meu grande amor”, lançado no ano seguinte, foram pinçadas as faixas “O intruso”, “Só você”, “Meu coração ainda é seu” (que dá título à coletânea), “Foi você”, “Ajuda-me” e “É imenso o meu amor por você”. A faixa “Você nasceu pra mim” só foi editada em compacto simples, no ano de 1972, constituindo-se, portanto, em extrema raridade. Enfim, uma pequena, porém expressiva retrospectiva documentando os primeiros anos de carreira de Odair José, que agora é pop e merecidamente respeitado!

Texto: SAMUEL MACHADO FILHO.

Álbum: Meu Coração Ainda É Seu
Ano/Gravadora: (1973) Tropicana/CBS 01249 (Esta Edição)
Outras Edições: (1977) Entré/CBS 104383
Artista(s): Odair José
Acervo: Paulo Lucio
Formato: Vinil – 320 kbps

Fonogramas Lado 1
A01. O Intruso – (Rossini Pinto)
A02. Só Você – (Odair José)
A03. Meu Coração Ainda É Seu – (Rossini Pinto / Álvaro Menezes)
A04. Sua Cartinha – (Rossini Pinto)
A05. É Imenso o Meu Amor Por Você – (Dias Soares / Erick Adic)
A06. Se Eu Tivesse Você – (Maria Fernandes)

Fonogramas Lado 2
B01. Ajuda-me – (Odair José / David Lima)
B02. Mundo Feito de Saudade – (Diana)
B03. Foi Você – (Pedro Fernando)
B04. Eu Tenho – (Rossini Pinto)
B05. Perdi O Medo – (Odair José)
B06. Você Nasceu Pra Mim – (Nando Lopes / Samuel Ribeiro / Betto Lopes)

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